Tentando entender Preconceitos!

Uma queixa comum de brasileiros que vêm morar em Portugal é o preconceito. Seja ao lidar com burocracias em instituições públicas, seja na hora de arrendar uma casa ou mesmo candidatar-se a empregos.

A própria definição da palavra no dicionário evidencia a injustiça com o outro “Opinião ou sentimento desfavorável, concebido antecipadamente ou independente de experiência ou razão” (Dicionário Michaelis). Pela nossa experiência, achamos que é mais comum o preconceito quanto menor literacia. Também usamos, como uma “defesa psicológica”,  pensar que o preconceito tem origem na insegurança pessoal ou deficit de inteligência do outro. Claro que podem haver extremos de irracionalidade, algo incompreensível para mentes saudáveis e inteligentes.

Como filho de imigrantes portugueses criado no Rio de Janeiro , claro que cresci com o estigma do “português associado a burrice” que trazia resquícios de imigrantes portugueses muito pobres no final do século 19. Superei-o ao longo da infância por uma auto-estima moldada por meus pais,  exemplos de inteligência, obstinação e até um savoir-faire que me passavam. Meu pai até coleccionava e contava piadas de português. E a maioria delas, com a idade, percebi que incutiam a característica do imigrante português de trabalhar em demasia e se negar os prazeres ou o  dolce far niente  que tanto se orgulhavam os brasileiros. O português típico, abria uma padaria, um botequim , uma mercearia, morava no sobrado e juntava dinheiro uma vida toda quase sem descanso e investindo no patrimônio e na educação dos filhos (falamos das décadas 50-60 pós Segunda Grande Guerra). O brasileiro tentava “ensinar” ao português que dando para a “cerveja do dia”, havia felicidade e era uma “burrice” trabalhar tanto e não desfrutar um pouco a VIDA (desculpem-nos nossos esteriotipos/preconceitos e generalidades em tudo que foi escrito neste parágrafo para ser mais didático neste ponto de vista).

De onde vêm então os preconceitos de brasileiras serem “prostitutas” e brasileiros serem bandidos?

Desde a década de 90, acompanhamos fluxos migratórios de brasileiros vindo para Portugal. Claro que a imensa maioria era de trabalhadores honestos que vieram , muitos conquistaram seus sonhos e se estabeleceram ou juntaram dinheiro e voltaram ao Brasil. Alguns não se adaptaram e também voltaram.  Muitos casaram-se por cá e são felizes até hoje. Mas nesta época líamos que o imigrante brasileiro era o mais pacífico, se mesclando aos portugueses facilmente nos bairros e fazendo círculo de amizades com os portugueses e demais imigrantes, diferentemente de outros imigrantes que se mantinham isolados em “guetos”.

No entanto, Portugal virava-se para a União Europeia e seu modelo de sociedade em evolução (Alemanha, França, Inglaterra, Holanda e países escandinavos) o povo português (generalizando) começou a avançar a passos largos não só em termos de instituições e construções mas mesmo em termos de costumes e evolução de pensamento. Na verdade cremos, que apesar de muita discussão em plenários e assembleias, muitas leis portuguesas foram aprovadas e os “costumes e tradições” forçosamente adaptando-se em prol de um comportamento mais “europeu” e legislações mais laicas. Num país de tradições católicas vincadas , tal parto faz-se a fórceps muitas vezes. Foi um momento de grandes transformações. Portugal hibernara durante mais de 50 anos sob jugo de uma ditadura opressiva que limitou o pensamento livre de gerações. Adaptar-se aos costumes modernos foi e ainda é conflituoso. Um país de 10 milhões  de habitantes que repentinamente precisava de mão de obra estrangeira recebeu emigrantes do leste europeu, do Brasil e países africanos muito em simultâneo, trazendo seus costumes, culturas, qualidades e vícios também.

Para encurtar o texto que não tem pretensão de tese antropológica/sociológica, listaremos 3 factos ocorridos em Portugal nas últimas décadas e que talvez tenham contribuído moldar estes preconceitos, ainda que de uma forma “velada”. Esta é uma simples visão particular:

1 – grupos de assaltantes brasileiros começaram a se organizar e roubar bombas de gasolina (assaltos à mão armada aos postos de gasolina). Após investigações levadas à cabo por PSP, GNR e Polícia Judiciária, prenderam-se diversos assaltantes , a  maioria de nacionalidade brasileira que tinham trabalho na construção civil( álibi de alguns  e nas folgas ou à noite, dedicavam-se aos crimes. Este era o “modus operandi” . Foi intensamente publicado e já ficou um primeiro estigma com brasileiros. Vários bancos também foram assaltados por brasileiros com violência muito além de qualquer histórico no país, tendo sido emblemático o assalto ao BES em Lisboa Assalto BES por brasileiros

2 – diversos empreiteiros brasileiros , eram contratados para remodelar (reformar) obras e apartamentos, iniciavam 5, 10, 20 obras em simultâneo, acertavam 30 % na entrada, mais 40% após demolição e final da obra os restantes 30% do orçamento. Uma grande número de empreiteiros, pegava a entrada e fugia para o Brasil. Outros ainda, quebravam tudo e fugiam com 70% do valor da obra. Uns poucos terminavam a obra. Com cenas de polícia prendendo alguns no aeroporto o estigma de que brasileiro pega o dinheiro e não cumpre contratos ficou na sociedade portuguesa.

3 – a prostituição : infelizmente o tráfico de pessoas, o negócio da prostituição (dados da organizações internacionais já apontam como o 3º mais rentável no mundo perdendo apenas para armas e drogas) também passou como avalanche em Portugal. Muitas prostitutas brasileiras e travestis vieram em grande número e muitas para regiões muito pacatas e tradicionais trazendo revolução de costumes, impactando saúde pública sem preparo na época (advento do HIV era coincidente) e isto divulgado insistentemente na mídia. Houve capa da Revista Time sobre a prostituição de brasileiras em Bragança, a ” nova rota do sexo”. Mais um estigma que ficou para as brasileiras. Lembrou-nos até as prostitutas que migraram para o Rio de Janeiro no final do século 19, em grande parte judias polacas fugindo de anti-semitismo europeu que foram sujeitas a esta condição Aquelas Mulheres

Houve na época uma passeata na cidade (Mães de Bragança) que marcam até hoje as conversas privadas sobre o tema.

4 – um brasileiro arrendava um determinado apartamento e depois sub-locava o apartamento para diversos brasileiros com famílias ocupando cada quarto. Sem informar ao locador e muitas vezes, voltando ao Brasil e deixando de pagar rendas por meses.

 

Portanto, façamos a nossa mea-culpa e tentemos compreender. Coloquemo-nos no lugar do povo português. E se aparecesse um grupo boliviano ou muçulmano a assaltar um banco( numa cidade brasileira), com mulheres e criancinhas indefesas como reféns, com transmissão ao vivo nas TVs por 8 horas! Qual seria a reacção da “galera”?

Hoje por Lisboa também existem grupos organizados de pedintes, em sua maioria romenos, que fazem parte de uma organização internacional de burla de apoios sociais. Quando um país facilita este tipo de “acolhimento”, trazem cada vez mais para os usufruir. Entretanto, também conhecemos óptimas pessoas, médicos, diversos profissionais romenos com ética. Actualmente, devido a actuação de políticos,  consulados e ONGs, há um cuidado maior em não divulgar nacionalidades de “suspeitos de crimes”  ou burlas nas reportagens.  Até tem-se o cuidado de não definir o termo “assaltante”.

Portanto, mesmo quem procura quebrar em si o preconceito , há quase sempre um “inconsciente”  que põe “o pé atrás” num primeiro contacto com brasilerios.

Nossa recomendação? Redobre cuidados com a  “primeira impressão”. O brasileiro e a brasileira normalmente têm óptima auto-estima. Se acham simpáticos, apaixonados no que fazem, são vaidosos (quase narcisistas) e demonstra-no facilmente nas relações. Para algumas propostas de trabalho ou arrendamento pode ser importante mas  para outras, pode determinar o desastre. “Cautela e caldo de galinha não faz mal a ninguém “. Aparência, educação, postura profissional e com o tempo, a descontracção e exuberância terão seu devido espaço conquistado.

Lembro de um escritor e especialista em RH que mencionava que algumas empresas no Brasil precisavam rever seus critérios de selecção pois cada vez mais queriam seleccionar profissionais que  sabiam “vender-se” bem. E cada vez as empresas estavam cheias de de empregados  egocêntricos, psicopatas e narcisistas. Salientava “Qual a necessidade de um contabilista que trabalhe o dia inteiro fazendo contas e sendo organizado nas suas tarefas ser extrovertido e simpático?Tem que ser metódico e bom nas contas .” Ou um web designer tímido que nas horas vagas ainda se isola em games 3D? O que torna a humanidade tão rica são suas diferenças e individualidades e não suas semelhanças.

Adaptabilidade e flexibilidade cada vez mais são as virtudes da sobrevivência humana e o mundo é o palco de trabalho.

Boa sorte , paciência e temperança.

 


Sobre Paulo Costa

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