North King – este navio levou milhares de portugueses emigrantes para o Brasil…

Cada luso-descendente, em qualquer país que nasça, carrega certamente o amor por duas pátrias. Crescemos como crianças especiais enriquecidas de um imaginário de duas culturas. Lembro-me em criança dormir à luz de lamparina de querosene, assustado com as histórias de meus pais e amigos portugueses, que sempre se reuniam após os jantares festivos a lembrarem-se de história de lobos nas aldeias, bruxas e bruxedos, das actividades das cegadas do centeio, das medas, tomar banhos de rio, caçar passarinhos, do trabalho árduo de sol-a-sol que deixavam para trás junto com a juventude no Minho, Trás-os-Montes ou da Beira. Nosso mundo imaginário, enquanto brincávamos de fazer bichos ou monstros  nas sombras na parede, era povoado de histórias de neve, montanhas, adegas e vinho, que encontravam reforço ao saborearmos as comidas portuguesas com o qual éramos criados e cada parente ou amigo reforçava a importância ou uso de determinado prato, mesmo que para nós crianças, ficasse muito distante a relação de determinada comida com certa estação do ano. Uma simples patanisca de bacalhau, uma chouriça com pão ou um saboroso caldo verde poderia facilmente trazer lágrimas aos olhos de um padrinho, de um pai imigrante (com difícil compreensão para nós), pois em suas lágrimas estavam  recordações da terra longínqua e da família que lá ficara.  O que um luso-descendente anseia secretamente é  “reencontrar” a pátria de nossos pais, sorver a emoção das histórias mágicas de nossa infância e fazer uma conexão com a genealogia “separada”.

Nosso pai, nascido em 1929, emigrou para o Brasil em finais de 1952 vindo para o Rio de Janeiro no navio North King e assim como milhares de outros portugueses fugindo da pobreza do pós guerra, trazia um sonho de criar uma família e filhos de forma a propiciar oportunidades que lhe eram difíceis em sua terra natal. Apaixonou-se pelo Brasil e nunca se imaginava retornar a Portugal em definitivo (e nunca voltou).

Para muitos, o Oceano Atlântico simplesmente separa estas duas nações . Entretanto, ao rever esta foto do North King, lembrar as histórias de nosso pai e dos milhares de imigrantes que trouxe em seus muitos anos de viagens, a memória viva de cada um ainda está nos seus descendentes, familiares e amigos de ambos os lados e na verdade, conseguimos visualizar um grande mar de vidas e histórias unindo estes dois países. O sal de seu mar pode ser de lágrimas de Portugal mas como Vinícius de Morais escreveu em seu fado “Saudades do Brasil em Portugal”, “o sal das minhas lágrimas de amor, criou o mar que existe entre nós dois para nos unir e separar”.

 


Sobre Paulo Costa

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Um comentário

  1. Minha avó veio trazendo meu tio e minha mãe na última viagem do North King. Sinto exatamente a mesma coisa que descreveu. Realmente parece que não existe um lugar fixo para enraizar o coração. São dois amores. Realmente sinto o desejo de conhecer a terra de minha parte materna.

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